
Olho para uma folha de papel...branca, sem fundo colorido, ausente de imagem, nua de riscos que lhe desenhem vida, movimento puro de sentidos. Uma folha branca. Um lugar onde tanto pode acontecer. Uma guerra e uma paz. Um tratado ou um acordo. Um negocio ou um divorcio. A história ou uma estória. Numa folha branca pode-se pintar prados ou um mar crispado. Pode-se imaginar figuras abstractas ou mesmo minimalismos condutores. Uma folha branca pode ser o principio ou o fim. Uma folha branca. Escrevo palavras por esta folha, e encho-a com descrições, pensamentos, filosofias baratas. E ela não deixa de ser uma folha branca, como podia ser amarela, verde ou mesmo preta. Isso preta. Gosto do negro da noite que nos abraça, que conforta-nos numa solidão gostosa. Apetece-me pegar nesta folha branca e escrever... escrever até os meus dedos possam doer... possam abrir feridas e sangrar todo um corpo.
Sangro pelo branco do meu corpo
Sangro pelas correntes destas ruas onde os dedos se confundem com pedaços de lixo
Sangro pelo rio desta pele que me agasalha das intempéries da dor
Sangro pelo céu deste meu pensamento, que vagueia como nómada pelos confins da alma
Sangro do sangue que cega o meu horizonte com solidão
Sangro do sangue que grita das sarjetas de meu coração
Vazio, deslavado pelo sofrer, pela ausência de sentir.
Sangro e encho esta folha de cor, penetrando em seu intimo, fundo de sua existência.
Sangro e encho-a de viscosidade de ardor intenso, mutação periclitada.
És folha branca, mais não serás. Mas eras bela, pelo teu nu, despida de cruz.
Tapei feridas, curei maleitas abertas no fundo desta minha vida, eu, uma simples folha branca.
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