Tuesday, May 15, 2007

Assim se escreve de Amor


Percebo na noite que o silencio brinda a tua chegada
Vens na solidão das estrelas, que te cobrem na luz de uma aurora celeste
Vens pelas caminhos desenhados por homens de fé
Vens com um sorriso pintado nesses teus lábios em que o mel se derrete pela manhã
Vens vestida com as cores da madrugada, esse arco-íris de leito sedoso
Aqui te espero, sentado nesta esquina do rio
Aqui te espero, no sossego dos pensamentos, perdido por entre sonhos
Aqui te espero, na leveza do tempo, limpo de saudades
Aqui te espero, no vazio do lugar, ausente pela tua impresença.
Vejo-te mais bela que os dias que ansiei
Vejo-te mais bela que o sol que me aqueceu na espera do teu encontro
Vejo-te mais bela que a retina dos meus olhos consegue alcançar.
És bela e eu um faminto de tua beleza.
Sou um simples caminhante, um navegador desta caravela tua que poderosa rasgas os mares do sul ao norte, dominando quais monstros de contos e coutadas.
Sou um pequeno poeta que soletra todos os cantos que tua boca respira.
Sou um pequeno cantor que entoa todas as pautas do teu longo coração.
Sou um pequeno trovador que lança ao vento todas as letras de amor que por ti se enamora.
Vem e deixa-me amar-te nos meus braços, assim deitados nestes campos de paixão.

Tuesday, May 8, 2007

Folha Branca... folha de vida


Olho para uma folha de papel...branca, sem fundo colorido, ausente de imagem, nua de riscos que lhe desenhem vida, movimento puro de sentidos. Uma folha branca. Um lugar onde tanto pode acontecer. Uma guerra e uma paz. Um tratado ou um acordo. Um negocio ou um divorcio. A história ou uma estória. Numa folha branca pode-se pintar prados ou um mar crispado. Pode-se imaginar figuras abstractas ou mesmo minimalismos condutores. Uma folha branca pode ser o principio ou o fim. Uma folha branca. Escrevo palavras por esta folha, e encho-a com descrições, pensamentos, filosofias baratas. E ela não deixa de ser uma folha branca, como podia ser amarela, verde ou mesmo preta. Isso preta. Gosto do negro da noite que nos abraça, que conforta-nos numa solidão gostosa. Apetece-me pegar nesta folha branca e escrever... escrever até os meus dedos possam doer... possam abrir feridas e sangrar todo um corpo.

Sangro pelo branco do meu corpo
Sangro pelas correntes destas ruas onde os dedos se confundem com pedaços de lixo
Sangro pelo rio desta pele que me agasalha das intempéries da dor
Sangro pelo céu deste meu pensamento, que vagueia como nómada pelos confins da alma
Sangro do sangue que cega o meu horizonte com solidão
Sangro do sangue que grita das sarjetas de meu coração
Vazio, deslavado pelo sofrer, pela ausência de sentir.
Sangro e encho esta folha de cor, penetrando em seu intimo, fundo de sua existência.
Sangro e encho-a de viscosidade de ardor intenso, mutação periclitada.
És folha branca, mais não serás. Mas eras bela, pelo teu nu, despida de cruz.
Tapei feridas, curei maleitas abertas no fundo desta minha vida, eu, uma simples folha branca.

Thursday, May 3, 2007

Morrer onde a vida começa


Naquele dia encontrei um pássaro
Voava levemente por entre as ondas do nublado
Era melodia no bater de asas, musica no planar
Olhava-o com inveja na retina do meu coração
Sentia a vontade de libertar deste chão
Piso que me atrofia, me padece de vida.
Perguntei-lhe onde ia:
“Vou morrer”, resposta sem viver
E bico enjeitado, continuou soletrado
“ Vou morrer onde o sol se deita, onde o dia acaba”
E foi na brisa do entardecer, morrer onde desejava.
Suas palavras eu pintei no quadro da minha alma.
Por momentos fiquei na impavidez do pensamento.
Mas sentia o impulso daquele voar, vontade de partir.
Quero morrer. Quero deixar de ser.
Quero que as pessoas me esqueçam,
que os olhos me apaguem, que as bocas se fechem ao meu nome
Quero ser livre das gentes, quero sentir as asas dos anjos.
Quero morrer na tarde, dormindo já a noite no lençol das estrelas
Quero esquecer as cores, os cheiros, e a musica dos dias.
Quero morrer como o pássaro que voa e se deixa ir no horizonte.
Quero que a montanha me esconda no fio do seu cume,
e que me abraçe quando eu tiver frio, pois estarei morto para uns
e vivo para aqueles que me amam na verdade desta terra.
Quero deixar de ser, de sentir, de ter, de ver e ser visto.
Deixem-me morrer, falecer no entardecer da vossa lembrança.
Agora bato minhas asas e voo até onde o sol se deita e o dia acaba.